Diogo Nogueira toma partido do bom samba no álbum autoral 'MunduÊ'



Lançado em 2007 no mercado fonográfico com gravação ao vivo de show calcado no repertório do pai bamba, João Nogueira (1941 – 2000), Diogo Nogueira passou a primeira década da carreira na linha entre as tradições do samba e o que chama de modernidade, mas que, a rigor, é o trivial pagode romântico que já reinou soberano nas paradas nacionais até ser destronado pelo funk e pelo sertanejo. Sem falar que o artista carioca ainda fez pior, soando como mero cantor de barzinho no último projeto fonográfico, o CD e DVD Alma brasileira (2016), registro ao vivo de show em que faltou ao intérprete justamente a alma. Mas eis que o cantor e compositor vira a mesa do pagode com MunduÊ, álbum de repertório inteiramente autoral com que Diogo festeja esses 10 anos de carreira vitoriosa do ponto de vista empresarial.


Produzido por Rafael do Anjos com Alessandro Cardozo, o disco representa salutar tomada de posição do artista em favor do bom samba. A opção por repertório totalmente autoral em tese resultaria perigosa porque Diogo nunca foi compositor do porte de Arlindo Cruz, João Nogueira, Jorge Aragão, Sombrinha e Zeca Pagodinho – alguns dos bambas nominados pelo artista no texto de agradecimento reproduzido na edição em CD de MunduÊ. Só que o álbum surpreende positivamente com interessante safra de sambas, bem arranjados com ênfase na percussão e bem cantados.

A nítida evolução de Diogo como cantor ao longo desses dez anos se reflete nesse álbum que recoloca o artista no trilho, ainda que não chegue a ser obra-prima como Bossa negra (2014) – estupendo disco gravado e assinado por Diogo há três anos com o bandolinista Hamilton de Holanda. A propósito, um dos melhores sambas do álbum – MunduÊ, o que dá título ao disco posto no mercado pela Universal Music – tem a assinatura de Hamilton e de Bruno Barreto, parceiros de Diogo nesse tema que evoca a ancestralidade do samba.


Com o toque sempre refinado de Ivone Lara, nobre parceira de Diogo, Bruno Castro e Ciraninho na composição, Império e Portela também revolve a terra e as sementes do terreirão do samba para saudar as vizinhas escolas de samba Império Serrano e Portela, agremiações tradicionais do Carnaval do Rio de Janeiro. Na faixa, o portelense Diogo recebe Arlindo Neto, herdeiro do imperial Arlindo Cruz. Arlindinho foi requisitado para cantar o samba que não deu tempo de ser gravado com a voz de Wilson das Neves (1936 – 2007), como era a intenção inicial do anfitrião, como Diogo conta no texto em que dedica o álbum MunduÊ a Das Neves.


Com a mesma animação, o partido alto Me chama (Diogo Nogueira, Alessandro Cardozo e Rafael dos Anjos) põe na roda referências dos pagodes dos fundos de quintais que nunca deixam o samba carioca morrer (Ubirany, aliás, toca repique de mão em nove das 12 faixas do disco). Em tom positivista, Coragem (Diogo Nogueira, Fred Camacho e Leandro Fab) esboça clima de gafieira para passar mensagem de fé que, diante do momento do Brasil, pode ser entendida como um recado político que é dado de forma mais explícita em Tempos difíceis (Diogo Nogueira e Leandro Fregonesi).


Sem perder o pique e a inspiração, Dança do tempo (Diogo Nogueira, Inácio Rios e Mosquito) evoca o som do violão da bossa negra para dar testemunho de fé na vida. Em tom menor, com o toque do piano de Gilson Peranzzetta e de cordas arranjadas pelo mesmo Peranzzetta, Em nome do amor (Diogo Nogueira, Fred Camacho e Leandro Fab) propõe resistência a dois sem cair no chororô dos pagodes românticos. Com menor poder de sedução, No pé que está (Diogo Nogueira, Inácio Rios e Felipe Donguinha) também procura dar voz e razão ao coração.

Deslocando a rota e a roda de MunduÊ para a nação nordestina, Mercado popular (Diogo Nogueira e Leandro Fregonesi) lista iguarias locais em safra que remete ao estoque de Feira de mangaio (Sivuca e Glória Gadelho, 1977), tema forrozeiro projetado em 1979 na voz da cantora Clara Nunes (1942 – 1983). O sotaque da voz e o toque da sanfona da paraibana Lucy Alves evidenciam o acento nordestino da faixa.


Entre a melancolia romântica de Enredos ideais (Diogo Nogueira, Inácio Rios e Raphael Richaid) e a descontração popular do medley que junta Maior terapia (Diogo Nogueira, Fred Camacho e Leandro Fab) e Ela quer beijo na boca (Diogo Nogueira, Fred Camacho e Leandro Fab), o álbum MunduÊ expõe a sensualidade romântica de A cada dia (Diogo Nogueira, Rodrigo Leite e Rodrigo Lopez).


A requisição do maestro Ivan Paulo para assinar os arranjos de quatro faixas soa acertada em sambas como Andei lá (Diogo Nogueira, Inácio Rios e Raul Di Caprio) e contribui para a unidade que conduz MunduÊ até o fecho com Paixão emoldurada (Diogo Nogueira, Inácio Rios e Raphael Richaid), cativante samba com o qual o cantor pisa novamente no terreiro.


Enfim, com MunduÊ, Diogo Nogueira toma partido do bom samba escorado em obra autoral composta com parceiros da mesma geração do artista de atuais 36 anos. Descontado o ápice com o álbum Bossa negra, projeto atípico na discografia do sambista, MunduÊ se impõe como o melhor disco solo de Diogo por não ficar em cima do muro, se situando entre o terreiro e a cama sempre com bom nível. João Nogueira ficaria orgulhoso da virada de mesa do filho. (Cotação: * * * 1/2)

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